
Gafanha da Nazaré, Março de 2008
Reduzindo o quotidiano à sua maior qualidade: a limitada e imperfeita perfeição!


Hoje deste-me um nome
um nome que eu não queria
nome não pronunciado
gravado em pedra fria.
soube-me ao pó da estrada
às horas por ti choradas,
ilusões são sempre sonhos
ou esperas inacabadas?
vi bater na pedra gasta
cada letra e cada marca
fragmentos de ti em mim
cravados p’lo vento que passa.
quis morrer p’ra não chorar
o lamento desse nome
dentro de mim a morar.
e sem saberes fechou-se o dia…
Je t’embrasse,
es-ce que tu vois le ciel?
Je t’embrasse,
es-ce que tu vois la mer?
Je t’embrasse,
tes mains mon ciel
tes lèvres ma mer
tes yeux comme l’intimité de mon âme.























Luz nascente,
em ti os sonhos por viver
(guardados pelo tempo
embalados pelo mar)
num dia por chegar.
em ti os sonhos vividos
(ancorados no tempo
aconchegados no mar)
sem pressa de acabar.
em ti as lembranças por esquecer
(guardadas pelo tempo
embaladas pelo mar)
num dia por chegar.
em ti as lembranças esquecidas
(ancoradas no tempo
aconchegadas no mar)
sem pressa de acabar.

Um labirinto de razões
embala o destino já traçado,
o desejo de ficar alcança
a obstinada vontade de fugir.
Caminhos de breu
adormecem os sentidos
e pela manhã
risos cinzentos sopram do mar.
Correr para lá do tempo
através do sonho
que se cruza num pensar vazio
exausto de sentimentos.










Vem de longe a líquida vida que da lezíria se espraia e chega à cidade branca com ânsia de além-mar. A cidade adormecida, desperta com a saudade que por ela escoa desde o dia em que os lenços dos primeiros que ficaram, aconchegaram as lágrimas dos primeiros que partiam daquele tão amargo cais de incerteza. Colinas descem ao Tejo sonhando esse mar imenso que ali perto se agiganta e invocam, dolentes, as naus que há muito partiram sem nunca mais voltar.



Entre os ramos um mundo por descobrir, entre os ramos um trilho por encontrar onde não importa chegar somente partir. Entre os ramos caminhar e, por instantes, parar para ver, entre os ramos, os olhares errantes que fogem desencontrados. Entre os ramos o fio do tempo que se julgava parado, onde estão os deuses do tempo? Voltarão na manhã de todas as ilusões ou mesmo na noite que agora começa a tombar, entre os ramos, em abraços e promessas de aparição. Entre os ramos desejar poder reencontrar o teu olhar perdido.
Anoitece,
ao longe a barreira mal definida
entre o sonho e o real
entorpece os sentidos.
Do sonho aberto às águas
a sublime expressão do tempo a passar
descanso de baloiço bonançoso,
lânguido e sereno.

Afinal embarcou não sabendo ainda para onde, perdido entre os olhares que se cruzam no cais. Enche-se o ar com o estridente ruído de um som mal definido, chega de fora mas rapidamente plana dentro de cada um dos que anseiam no porto.
Agora é a viajem, ruma sem rumo no navio que o escolheu, é indiferente pensar para onde navega, tudo à volta está vazio, só há o nada que afinal é tudo o quanto consegue sentir. E no cais da memória muitos rostos para sempre à espera…